Os segredos da Paixão segundo São Mateus – 10. Morte e Sepultamento

Rogier van der Weyden: A descida de Cristo da cruz
Rogier van der Weyden: A descida de Cristo da cruz

Enfim chegamos ao último post dessa gigantesca análise da Paixão segundo São Mateus BWV.244 de Johann Sebastian Bach. Bem lá atrás, no post inicial da série, nós fizemos uma breve introdução sobre a obra e, entre outras coisas, explicamos que a obra era dividida em 68 números ou movimentos. Nos posts seguintes nós analisamos a música número a número, agrupando-os por assunto da seguinte forma: o coro inicial (nº 1) e a unção de Jesus em Betânia (nºs 2-6); a Última Ceia (nºs 7-13); a ida de Jesus ao Monte das Oliveiras (nºs 14-20); a tentação de Jesus, a traição de Judas e a prisão do mestre (nºs 21-29); o julgamento de Jesus pelos sumos sacerdotes (nºs 30-37); a negação de Pedro e o suicídio de Judas (nºs 38-44); o julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos (nºs 45-52); e o escárnio e a crucificação de Jesus (nºs 53-60). Neste último post veremos sua morte e sepultamento (nºs 61-68).

61. Rezitativ (Mt 27,45-50): Und von der sechsten Stunde an

Desde o post anterior as tonalidades bemóis predominam, retratando com cores escuras o sofrimento de Jesus na cruz. Os próximos números não serão diferentes; aqui por exemplo, o primeiro acorde já é um Mi bemol Maior.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 61a. Und von der sechsten Stunde an (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und von der sechsten Stunde an
war eine Finsternis über das ganze Land,
bis zu der neunten Stunde.
Evangelista
E desde a hora sexta
houve trevas sobre toda a terra,
até a hora nona.

Naquele tempo, a forma de contar as horas era diferente da atual. Contava-se doze horas do amanhecer ao pôr do sol, independente se o dia fosse mais longo, como no verão, ou mais curto, como no inverno. Assim, a hora sexta deveria ser por volta do meio dia, e a hora nona, 3 horas da tarde.

Bach: St. Matthew-Passion - 61a. Eine Finsternis über das ganze LandFinsternis (trevas) é cantado num fá bemol. Fá bemol! Existe nota mais escura do que essa? E é a nota mais aguda do trecho, para assim descrever a escuridão que tomou conta do céu nessa hora. A cadência é para Lá bemol Maior, a mesma tonalidade de quando Jesus chegou no Getsêmani para orar no recitativo nº 18.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 61a. Und um die neunte Stunde (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Und um die neunte Stunde
schriee Jesus laut und sprach:
Evangelista
E por volta da hora nona
Jesus gritou alto e disse:
Jesus
Eli, Eli, lama asabthani!
Jesus
Eli, Eli, lamá sabactâni?
Evangelist
Das ist: “Mein Gott, mein Gott,
warum hast du mich verlassen!”
Evangelista
Que significa: “Meu Deus, meu Deus,
por que você me abandonou?”

Bach: St. Matthew-Passion - 61a. Und schriee Jesus lautDesafiando a escuridão dos graves, a nota aguda de laut ([gritou] alto) faz um trítono com Jesus: ele teve de fazer muita força para a voz sair. Jesus na verdade estava rezando o Salmo 22, que começa exatamente com estas palavras. Elas deviam exprimir o que ele estava sentindo no momento.

Karel Dujardin: Calvário
Karel Dujardin: Calvário

Para caracterizar o abandono, Bach remove o acompanhamento de cordas, o “halo” que marcou todas as outras palavras de Jesus: aqui é o homem que está morrendo. Além disso, Jesus canta num andamento lento, marcado Adagio na partitura, e na tonalidade de Si bemol menor, 5 bemóis de escuridão. Quer mais sofrimento que isso? Então acompanhe a tradução do aramaico pelo Evangelista: Mi bemol menor, 6 bemóis! Reforçando o impacto do momento, Bach ainda adiciona duas pausas ao final da frase traduzida, segurando um silêncio sepulcral.

Alguns vão notar que a palavra sabactâni em aramaico, no texto em alemão, está escrita de maneira errada: asabthani. Bach utilizou a tradução da Bíblia por Martinho Lutero como fonte de texto para sua Paixão segundo São Mateus, e lá está escrito assim mesmo, asabthani. Traduções modernas para o alemão corrigem estas e outras palavras, atualizando inclusive a grafia antiga para a grafia moderna (por exemplo, trocando schriee por schrie).

Bach: Paixão segundo São Mateus – 61b. Der rufet den Elias (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Evangelist
Etliche aber, die da stunden,
da sie das höreten, sprachen sie:
Evangelista
Mas alguns dos que ali estavam,
quando ouviram isso, disseram:
Chor 1
Der rufet den Elias.
Coro 1
Ele chama por Elias.
Evangelist
Und bald lief einer unter ihnen,
nahm einen Schwamm
und füllete ihn mit Essig,
und steckete ihn auf ein Rohr
und tränkete ihn.
Evangelista
E logo correu um dentre eles,
tomou uma esponja
e a ensopou com vinagre,
e espetou-a numa vara
e deu-lhe para beber.

Die da stunden (os que ali estavam) carrega um trítono entre baixo e voz, não eram pessoas bem intencionadas. Höreten (ouviram) também tem um trítono, mostrando que eles ouviram errado e confundiram Eli, Deus em aramaico, com Elias, o nome de um dos profetas mais famosos da história dos hebreus. Elias fez muitos milagres, então haveria lógica em invocá-lo num momento tão desesperador.

Bach: St. Matthew-Passion - 61c. Und steckete ihn auf ein RohrBach coloca mais palavras do Evangelista em semicolcheias, para fazê-lo cantar mais rapidamente e mostrar o rapaz correndo para pegar a esponja. Essig (vinagre) tem um trítono azedo e há outro em Rohr (vara), apontando para o agudo como a vara oferecendo a esponja a Jesus.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 61d. Halt lass sehen ob Elias (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Evangelist
Die andern aber sprachen:
Evangelista
Mas os outros disseram:
Chor 2
Halt, lass sehen,
ob Elias komme und ihm helfe?
Coro 2
Pare, deixe-nos ver,
se Elias virá e o ajudará?
Evangelist
Aber Jesus schriee abermals laut
und verschied.
Evangelista
Porém Jesus gritou novamente alto
e faleceu.

Bach: St. Matthew-Passion - 61a. Und verschiedA turba anterior fora cantada apenas pelo coro 1; esta aqui são “os outros” que cantam, o coro 2. O trítono de lass sehen (deixe-nos ver) mostra que eles continuam zombando de Jesus, não estão falando sério. Mas Jesus grita alto (laut), no agudo, e morre (und verschied) pendendo a cabeça para os graves. Cadência para Lá menor, tonalidade sem bemóis: é o fim do sofrimento.

Por que se morria na crucificação? Havia várias causas possíveis, e tudo dependia do estado físico do condenado: se ele estivesse saudável, levaria muito mais tempo para morrer. Entre as causas comuns, poderíamos citar estado de choque, falha do coração, infecção causada pelos pregos, desidratação e até asfixia por exaustão. Pois na posição que fica o crucificado, para ele respirar é necessário se apoiar no prego dos pés e se levantar; à medida que a pessoa vai ficando fraca, este esforço fica cada vez mais dolorido e cansativo, e a pessoa morre asfixiada. Para acelerar a morte, muitas vezes os soldados quebravam as pernas dos condenados, impossibilitando-os de se erguerem para respirar.

O Evangelho de São Marcos diz que Jesus foi crucificado à hora terceira, 9 horas da manhã, então podemos presumir que Jesus ficou em torno de seis horas na cruz até falecer.

62. Choral: Wenn ich einmal soll scheiden

O coral-símbolo da Paixão, O Haupt voll Blut und Wunden, reaparece aqui num dos momentos mais importantes da obra. Já ouvimos este coral quatro vezes, nos nºs 15, 17, 44 e 54, e desta vez Bach apresenta a nona estrofe harmonizando-a num registro grave, sentindo a escuridão da morte:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 62. Wenn ich einmal soll scheiden (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Wenn ich einmal soll scheiden,
So scheide nicht von mir!
Wenn ich den Tod soll leiden,
So tritt du dann herfür!
Wenn mir am allerbängsten
Wird um das Herze sein,
So reiss mich aus den Ängsten
kraft deiner Angst und Pein!
Quando eu tiver de partir,
não se afaste de mim!
Quando eu tiver de sofrer a morte,
então venha para mais perto!
Quando cheio de angústia
estiver meu coração,
retire de mim o medo
através do seu medo e dor!

Allerbängsten (cheio de angústia) tem uma harmonia bastante cromática e indecisa, assim como em Ängsten (medo). E o coral termina numa harmonia ambígua (V65-i-V), como num momento de dúvida e terror do cristão.

63. Rezitativ (Mt 27,51-58): Und siehe da, der Vorhang im Tempel zerriss

O início deste recitativo é uma das partes mais famosas da Paixão, por descrever tantas coisas usando apenas o baixo contínuo:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 63a. Und siehe da der Vorhang im Tempel (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und siehe da, der Vorhang im Tempel
zerriss in zwei Stück,
von oben an bis unten aus.
Und die Erde erbebete,
und die Felsen zerrissen,
und die Gräber täten sich auf,
und stunden auf viel Leiber der Heiligen,
die da schliefen;
Und gingen aus den Gräbern
nach seiner Auferstehung
und kamen in die heilige Stadt
und erschienen vielen.
Evangelista
E veja então, a cortina do templo
rasgou-se em duas partes,
de cima até embaixo.
E a terra tremeu,
e as rochas racharam,
e as sepulturas se abriram,
e se levantaram muitos corpos de santos
que ali dormiam;
e saindo das sepulturas
após sua ressurreição
e vieram para a cidade santa
e apareceram a muitos.

Bach: St. Matthew-Passion - 63a. Der Vorhang im Tempel zerriss in zwei Stück

Que cena, hein! Und siehe da (e veja então) sobe com o olhar o Evangelista apontando para algum lugar, e o baixo contínuo olha depois na mesma direção, subindo. Der vorhang im Tempel zerris (a cortina do templo rasgou) desce, com o baixo contínuo rasgando para baixo, e in zwei Stück (em duas partes) sobe, com o baixo contínuo desenhando a segunda parte da cortina rasgada. A cortina rasgou de cima (von oben) no agudo, até embaixo (bis unten aus) no grave.

Diego Velázquez: Cristo crucificado
Diego Velázquez: Cristo crucificado

O famoso historiador Flávio Josefo chegou a reportar que esta cortina tinha 18 m de altura e 10 cm de espessura. Ela separava o local onde os sacerdotes ficavam, o “Santo”, do local mais sagrado de todos, o “Santo dos Santos”, onde somente o sumo sacerdote poderia entrar e somente uma vez ao ano. Quando Mateus diz que a cortina rasgou, ele quer dizer que a morte de Jesus estabelece um novo relacionamento, mais próximo e direto, entre Deus e os homens. Sem cortinas no meio.

Und die Erde erbebete (e a terra tremeu), ouçam o terremoto no baixo! Zerrissen (racharam) tem duas notas distantes, abrindo a rachadura. Gräber (sepulturas) no grave, se abrindo (täten sich auf) para o céu aberto dos agudos. A terra só para de tremer quando o Evangelista fala nos que dormiam (schliefen), com uma nota longa e grave descrevendo o sono. As várias idas e subidas do texto são descritas com melodias ascendentes: und stunden auf (e se levantaram), und gingen aus (e saindo), und kamen in (e vieram).

Se a ressurreição dos mortos parecer exagerada para os mais céticos, há sempre a possibilidade de ler estas linhas interpretando-as como uma alegoria: com a morte de Jesus, salvação e vida plena são garantidas a todos os fiéis (os “santos” no texto), sem exceção. E quem são os fiéis? Veja a seguir:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 63b. Wahrlich dieser ist Gottes Sohn gewesen (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Evangelist
Aber der Hauptmann,
und die bei ihm waren
und bewahreten Jesum,
da sie sahen das Erdbeben
und was da geschah,
erschraken sie sehr und sprachen:
Evangelista
Mas o comandante,
e os que com ele estavam
e guardavam Jesus,
quando eles viram o terremoto
e o que aconteceu,
assustaram-se muito e disseram:
Chor 1+2
Wahrlich, dieser ist Gottes Sohn gewesen.
Coro 1+2
Realmente, este era o Filho de Deus.

Bach: St. Matthew-Passion - 63a. Und bewahreten JesumDepois de tantos anos pregando para os judeus, os primeiros a reconhecer Jesus como Filho de Deus são pagãos estrangeiros, os soldados romanos. Mateus assim anuncia um novo tempo, onde o povo escolhido por Deus não está restrito a uma nação específica mas sim a todos aqueles que acreditam em Jesus como Filho de Deus.

Bach: St. Matthew-Passion - 63b. Wahrlich, dieser ist Gottes Sohn gewesen
(clique para ampliar)

E na música, o que temos? Surpresa: Jesum em notas graves, não porque Bach abandonou a hierarquia mas porque Jesus agora está morto. Erdbeben (terremoto) tem um trítono amedrontador, que assusta (erschraken) os soldados com um outro trítono entre voz e baixo. É assim, amedrontados, que ambos os coros e orquestras professam sua fé com uma das passagens mais emocionantes de toda a Paixão segundo São Mateus. E não só eles, mas o compositor também.

Bach gostava de adicionar uma assinatura numerológica em suas obras, conforme já explicamos no post introdutório. Atribuindo um número para cada letra (A=1, B=2, C=3… H=8) e somando os valores, chegamos ao número 14, o “número de Bach”. Quando cantava em corais, Bach cantava a parte do baixo, e nesse trecho aqui o baixo canta exatamente 14 notas. Conte-as no áudio abaixo:

14 notas em Wahrlich dieser ist Gottes Sohn gewesen:

É como se Bach estivesse professando sua fé junto com o coro. Mas… por que esconder coisas assim na partitura? Quem seria louco o suficiente para ficar contando notas e compassos?

Bem, até pouco tempo atrás, antes de uma orquestra começar a ensaiar uma obra qualquer, as partituras de cada um dos instrumentos precisavam ser preparadas à mão por copistas. Eles liam a grade orquestral, uma partitura completa como a da imagem logo acima, e copiavam só as notas do oboé numa página, depois só as do violino noutra, e assim por diante. A maneira mais rápida de checar se tudo havia sido copiado corretamente era contando compassos ou notas. Agora imaginem o sorriso do copista ao encontrar um número familiar, um segredo criado só para ele… E o sorriso do Amancio aqui ao descobrir essas coincidências? Não tem preço…

Bach: Paixão segundo São Mateus – 63c. Und es waren viel Weiber da (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und es waren viel Weiber da,
die von ferne zusahen,
die da waren nachgefolget aus Galiläa
und hatten ihm gedienet;
unter welchen war Maria Magdalena
und Maria, die Mutter Jakobi und Joses,
und die Mutter der Kinder Zebedäi.
Evangelista
E estavam muitas mulheres ali,
que de longe observavam,
que haviam seguido desde a Galiléia
e o tinham servido;
entre as quais estavam Maria Madalena,
e Maria, a mãe de Tiago e de José,
e a mãe dos filhos de Zebedeu.

Bach: St. Matthew-Passion - 63c. Die von ferne zusahenE só agora ficamos sabemos que Jesus não estava só, vários amigos estavam presentes na crucificação. O Evangelho de São João acrescenta mais duas pessoas importantes a esse grupo: Maria, mãe de Jesus, e o discípulo João, o autor do Evangelho. Eles observavam de longe (von ferne), da nota si aqui de baixo, olhando para Jesus lá em cima na cruz, na nota sol aguda de zusahen (observavam). Os presentes são descritos com dissonâncias que mostram a tristeza e sofrimento deles, mas há uma dissonância especial neste trecho: Kinder (filhos) tem um trítono, e Zebedäi (de Zebedeu) um acorde de 7ª diminuta. Conforme mencionamos no nº 18, os filhos de Zebedeu são aqueles dois discípulos que queriam se sentar à esquerda e à direita de Jesus na glória do Reino de Deus. Onde estão eles agora? Apenas sua mãe está presente.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 63c. Am Abend aber kam (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Am Abend aber kam
ein reicher Mann von Arimathia,
der hiess Joseph,
welcher auch ein Jünger Jesu war.
Der ging zu Pilato
und bat ihn um den Leichnam Jesu.
Da befahl Pilatus,
man sollte ihm ihn geben.
Evangelista
Porém ao entardecer veio
um rico homem de Arimatéia,
que se chamava José,
o qual também era um discípulo de Jesus.
Esse foi a Pilatos
e pediu a ele o corpo de Jesus.
Então ordenou Pilatos
que lhe fosse entregue.

Bach: St. Matthew-Passion - 63c. Joseph, welcher auch ein Jünger Jesu warAm Abend (ao entardecer) segue a direção do sol, caindo a tarde. Um homem rico (ein reicher Mann) não rasteja no chão dos graves, por isso ele é citado lá em cima no agudo. E vocês lembram da apresentação de Judas no nº 7, cheia de dissonâncias? José de Arimatéia nos é apresentado com um Mi bemol Maior sem nenhuma inversão: eis um homem justo e correto… e triste, pelo Dó menor (a relativa de Mi bemol) em Jesu war: ele era um discípulo, não é mais porque Jesus já morreu.

Der ging zu Pilato (esse foi a Pilatos) é uma ida, portanto com melodia ascendente. E pela distância e firmeza de man sollte, Pilatos ordena com todo o poder e clareza, sem entretantos nem poréns – e nem inversões de acordes no baixo contínuo.

64. Rezitativ (Bass): Am Abend, da es kühle war

O comentário à morte de Jesus cita duas passagens do Antigo Testamento, acompanhe:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 64. Am Abend da es kühle war (Henschel – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Am Abend, da
es kühle war,
Ward Adams Fallen offenbar.
Am Abend drücket ihn der Heiland nieder;
Am Abend kam die Taube wieder
Und trug ein Ölblatt in dem Munde.
O schöne Zeit!
O Abendstunde!
Der Friedensschluss
ist nun mit Gott gemacht,
Denn Jesus hat sein Kreuz vollbracht.
Sein Leichnam kommt zur Ruh.
Ach, liebe Seele, bitte du,
Geh, lasse dir den toten Jesum schenken,
O heilsames, o köstlich’s Angedenken!
Ao entardecer, quando
[o tempo] ficou fresco,
ficou a queda de Adão evidente.
Ao entardecer esmagou-o o Salvador;
Ao entardecer voltou a pomba
e trouxe um ramo de oliveira em seu bico.
Oh, que belo tempo!
Oh, hora do entardecer!
O acordo de paz
agora está feito com Deus,
pois Jesus cumpriu sua cruz.
Seu corpo veio descansar.
Ah, querida alma, rogue,
Vá, deixe que lhe entreguem Jesus morto,
Oh salutar, oh preciosa recordação!

A primeira citação é da queda de Adão (Adams Fallen), obviamente cantado com a melodia descendo. Depois de criar o primeiro homem e a primeira mulher, Deus os proibiu de comerem frutos de uma das árvores do paraíso; mas eles foram lá e comeram. Quando o fato ficou evidente (offenbar) no agudo à mostra para todo mundo ver, Deus os expulsou do paraíso.

Bach: St. Matthew-Passion - 64. O Abendstunde!A outra citação é a da pomba com um ramo de oliveira: é o final da história da Arca de Noé, o ramo de oliveira era um sinal de que o dilúvio tinha acabado e já havia terra firme para todos descerem da arca. Segundo o poema, ambas as histórias e também a morte de Jesus aconteceram na hora do entardecer (Abendstunde), que é cantado de forma descendente toda vez que é citado. Notem também que os instrumentos tocam num registro mais grave, escurecendo o céu dos sons.

Friedensschluss (acordo de paz) é harmonizado com um dos primeiros acordes maiores do trecho, Si bemol Maior. E kommt zur Ruh (veio descansar) desce para descansar nos graves. Será que vem mais lamento pela frente?

65. Arie (Bass): Mache dich, mein Herze, rein

Vem não! Ouvimos mais uma ária plenamente feliz porque o cristão fiel, aqui representado pelo baixo solista, aceitou o sacrifício de Jesus como sinal de sua salvação e agora quer sepultá-lo em seu coração. Ouçam que música apaixonante!

Bach: Paixão segundo São Mateus – 65. Mache dich mein Herze rein (Henschel – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Mache dich, mein Herze, rein,
Ich will Jesum selbst begraben.
Denn er soll nunmehr in mir
Für und für seine süsse Ruhe haben.
Welt, geh aus, lass Jesum ein!
Torne-se, meu coração, puro,
Eu mesmo quero sepultar Jesus.
Pois ele deve daqui por diante em mim
para sempre seu doce repouso encontrar.
Mundo, vá embora, deixe Jesus entrar!

O ritmo no baixo contínuo pulsa como o coração do poema. Porém o mais interessante são as duas linhas principais de acompanhamento: elas passam a música inteira se cruzando, se entrelaçando como se quisessem se tornar uma só. E terminam em uníssono, fundidas tal como Jesus no coração do solista, cuja melodia é igual à da linha de cima. No áudio abaixo eu separei a linha mais aguda à esquerda e a mais grave à direita; notem como elas se cruzam com frequência para ao final terminarem juntas:

Bach: St. Matthew-Passion - 65. Mache dich mein Herze rein

Cruzamento de vozes de 65. Mache dich mein Herze rein:

Bach: St. Matthew-Passion - 65. Welt, geh aus, lass Jesum ein!Toda vez que o solista canta begraben (sepultar), a melodia aponta para baixo. Na parte central da ária, süsse Ruhe (doce repouso) ou desce para os graves, ou descansa numa nota longa. E geh aus (vá embora) manda o mundo para cima, para fora, direção contrária à de lass [Jesum] ein (deixe [Jesus] entrar).

66. Rezitativ (Mt 27,59-66): Und Joseph nahm den Leib

Bach: Paixão segundo São Mateus – 66a. Und Joseph nahm den Leib (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und Joseph nahm den Leib
und wickelte ihn in ein’ rein Leinwand
und legte ihn in sein eigen neu Grab,
welches er hatte lassen in einen Fels hauen;
Und wälzete einen grossen Stein
vor die Tür des Grabes und ging davon.
Es war aber allda Maria Magdalena
und die andere Maria,
die setzten sich gegen das Grab.
Evangelista
E José tomou o corpo
e o envolveu em um puro lençol de linho
e o colocou em sua própria sepultura nova,
a qual ele tinha numa rocha escavado;
e rolou uma grande pedra
para a porta da sepultura e foi embora.
Porém estavam ali Maria Madalena
e a outra Maria,
sentadas na frente da sepultura.

Vocês conhecem a Pietà do Michelângelo? Sim? E a Pietà do Bach? Não? Prazer: esta é a Pietà do Bach:

Bach: St. Matthew-Passion - 66a. Und Joseph nahm den Leib
Pietà de Michelângelo e Pietà de Bach

O baixo contínuo dá um acorde de Sol menor, e o Evangelista canta as notas do acorde: ré-sol-ré-sib-ré… Você espera ouvir um sol, a cabeça do acorde, não é? Mas Jesus está morto, a cabeça pende para baixo, e ouvimos um fá#. Compare no áudio seguinte, se Jesus estivesse vivo no colo de sua mãe, ouviríamos isso:

Pietà de Bach com Jesus vivo e Jesus morto:

O ritual de sepultamento dos judeus começava lavando o corpo, estancando sangramentos e removendo sangue e outras sujeiras; depois o corpo era purificado com água ou perfume e por fim ele era enfaixado antes de ser colocado na sepultura. Era sexta feira à tarde, e após o pôr do sol iniciaria o sábado, o dia sagrado em que ninguém poderia fazer qualquer tipo de trabalho. Por isso o sepultamento foi feito às pressas obedecendo apenas os rituais mínimos. O Evangelho de São Lucas ainda acrescenta que as mulheres foram para casa preparar os perfumes e retornaram só no domingo para continuar o ritual.

Bach: St. Matthew-Passion - 66a. Und wickelte ihn in ein' rein Leinwand

Na partitura, Bach “desenha” com as notas o ato de envolver (wickelte) o corpo com o lençol, subindo descendo e subindo a melodia como o lençol de linho (Leinwand) que, de tão puro que é, aparece sem nenhum acorde no baixo contínuo para não manchá-lo. O corpo então foi colocado (legte) nos graves, perto da nota mais grave cantada na palavra Grab (sepultura).

Bach: St. Matthew-Passion - 66a. Welches er hatte lassen in einen Fels hauen

Seguindo a superfície exterior da rocha, Bach coloca a longa frase welches er hatte lassen in einen Fels (a qual ele tinha numa rocha) subindo em escala, separando-a da palavra hauen (escavado) por um trítono para mostrar a abertura da sepultura.

Bach: St. Matthew-Passion - 66a. Und wälzete einen grossen Stein und ging davonE, claro, ao ser mencionada novamente, a sepultura (Grabes) aparece nos graves. Por fim José, triste com o acorde de 7ª diminuta, vai embora (und ging davon) numa melodia ascendente, deixando para trás no baixo duas colcheias anotadas como se estivessem fechando uma passagem. Seria a pedra do túmulo? Acho que sim, pois a confirmação vem logo depois com as mulheres sentadas na frente da sepultura (das Grab): olha lá as colcheias fechando a entrada do túmulo.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 66b. Herr wir haben gedacht (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Evangelist
Des andern Tages,
der da folget nach dem Rüsttage,
kamen die Hohenpriester und Pharisäer
sämtlich zu Pilato und sprachen:
Evangelista
No outro dia,
o que se seguia ao dia da preparação,
vieram os sumos sacerdotes e fariseus
todos a Pilatos e disseram:
Chor 1+2
Herr, wir haben gedacht,
dass dieser Verführer sprach,
da er noch lebete:
“Ich will nach dreien Tagen
wieder auferstehen”.
Darum befiehl,
dass man das Grab verwahre
bis an den dritten Tag,
auf dass nicht seine Jünger kommen
und stehlen ihn und sagen zu dem Volk:
Er ist auferstanden von den Toten;
und werde der letzte Betrug ärger,
denn der erste.
Coro 1+2
Senhor, nós pensamos
no que aquele impostor falou,
quando ele ainda vivia:
“Eu vou depois de três dias
ressuscitar”.
Portanto ordene
que se vigie a sepultura
até o terceiro dia,
para que seus discípulos não venham
e roubem-no e digam ao povo:
“Ele ressuscitou dos mortos”;
e seja esta última fraude pior
do que a primeira.

Não tem jeito, Bach nunca esquece a hierarquia: Hohenpriester (sumos sacerdotes) continuam soando acima de Pharisäer (fariseus). E quando esperávamos um finalzinho burocrático para o último recitativo da Paixão, Bach abre o baú de tesouros e nos dá mais uma de suas pérolas. Não só é uma das turbas mais bonitas de toda a obra, mas é também a mais longa, com 24 compassos.

Paolo Veronese: A Ressurreição de Cristo
Paolo Veronese: A Ressurreição de Cristo

Como estão todos com medo da ressurreição de Jesus, os dois coros chegam para Pilatos desesperados e impacientes cantando todos juntos: HERR (Senhor)! A frase ascendente ich will nach dreien Tagen wieder auferstehen (eu vou depois de três dias ressuscitar) passa a perfeita idéia do que seria a ressurreição de Jesus, terminando num glorioso Mi bemol Maior. Não é isso o que os sumos sacerdotes querem, o que eles querem é um final em tom menor, portanto ordene (darum befiehl) que se vigie a sepultura durante a nota longuíssima de verwahre (vigie), encaminhando a música para Sol menor. Mas não adianta, no final do terceiro dia (bis an den dritten Tag) a música vira para Sol Maior, Jesus vai ressuscitar com vigia ou sem vigia.

Und stehlen ihn (e roubem-no) tem uma melodia descendente, como se roubassem e escondessem o furto lá embaixo, com final em Lá bemol Maior… Mas que coisa, tom maior de novo? Os coros cantam und sagen zu dem Volk (e digam ao povo) forçando uma cadência para Fá menor, ah bom, voltamos aos tons menores, aí sim.

Er ist auferstanden (ele ressuscitou) é novamente ascendente, subindo dos mortos (Toten) lá embaixo nos graves. Em ärger (pior) há uma baita confusão de vozes fugindo do padrão rítmico que a música vinha mantendo até aqui. Todos se encaminham para uma cadência para Ré menor, o final desejado… mas no último compasso a música vira para Ré Maior. É Bach tirando uma casquinha dos sacerdotes: não adianta nada disso, Jesus vai ressuscitar no terceiro dia quer vocês queiram ou não.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 66c. Pilatus sprach zu ihnen (Bostridge – Henschel – Herreweghe):

Evangelist
Pilatus sprach zu ihnen:
Evangelista
Pilatos disse a eles:
Pilatus
Da habt ihr die Hüter;
gehet hin und verwahret’s,
wie ihr wisset.
Pilatus
Aqui vocês tem a guarda;
vão e vigiem
como vocês quiserem.
Evangelist
Sie gingen hin,
und verwahreten das Grab mit Hütern,
und versiegelten den Stein.
Evangelista
Eles foram,
e vigiaram a sepultura com guardas
e selaram a pedra.

Bach: St. Matthew-Passion - 66c. Gehet hin und verwahret'sGehet hin (vão) e sie gingen hin (eles foram) são ascendentes: eles foram e colocaram guardas de vigia (verwahret’s) lá em cima, na nota mais aguda de Pilatos. A sepultura (Grab) continua bem quietinha nos graves, mas a novidade é a pedra (Stein) selando a entrada com as mesmas duas colcheias unidas que vimos anteriormente.

Pronto, chegamos ao fim do capítulo 27 do Evangelho de São Mateus. A história continua na Bíblia com a ressurreição de Jesus no capítulo 28, mas não na música de Bach. Como a Paixão era executada na Sexta-feira Santa, Bach encerra o Evangelho por aqui e guarda a boa nova da ressurreição para o domingo de Páscoa.

Alexis-Nicolas Pérignon: A deposição da cruz
Alexis-Nicolas Pérignon: A deposição da cruz

67. Rezitativ (Soli) mit Chor 2: Nun ist der Herr zur Ruh gebracht

Finalizando esta longa jornada, os quatro solistas se despedem de Jesus com um emocionante boa noite.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 67. Nun ist der Herr zur Ruh gebracht (1) (Güra – Henschel – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Solo (Bass)
Nun ist der Herr zur Ruh gebracht.
Solo (Baixo)
Agora o Senhor foi descansar.
Chor 2
Mein Jesu, gute Nacht!
Coro 2
Meu Jesus, boa noite!
Solo (Tenor)
Die Müh’ ist aus,
die uns’re Sünden ihm gemacht.
Solo (Tenor)
O cansaço acabou,
aquele feito pelos nossos pecados.
Chor 2
Mein Jesu, gute Nacht!
Coro 2
Meu Jesus, boa noite!

Na despedida do baixo, ele canta Herr (Senhor) na nota mais aguda do trecho direcionando-o depois para o descanso dos graves. O coro então dá seu boa noite fazendo uma cadência para Lá bemol Maior: é bom descansar depois de tanto sofrimento. Também podemos relacionar esta tonalidade maior com o caráter das quatro árias do baixo, nºs 23, 42, 57 e 65, cujos textos parecem como os de um discípulo seguindo os ensinamentos de Cristo.

Na despedida do tenor, die Müh’ ist aus (o cansaço acabou) é bem descrito com um acorde diminuto, e depois de mais um “boa noite” o coro faz uma cadência para Mi bemol Maior. Lembrando que as duas árias do tenor, nºs 20 e 35, tem um conteúdo mais didático e moralizante, o que casa perfeitamente com uma tonalidade maior.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 67. Nun ist der Herr zur Ruh gebracht (2) (Rubens – Scholl – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Solo (Alt)
O selige Gebeine,
Seht, wie ich euch
mit Buss und Reu beweine,
Dass euch mein Fall
in solche Not gebracht.
Solo (Contralto)
Oh santo corpo,
veja como eu por você
com penitência e remorso choro,
pois a minha queda a você
tal aflição trouxe.
Chor 2
Mein Jesu, gute Nacht!
Coro 2
Meu Jesus, boa noite!
Solo (Sopran)
Habt lebenslang
vor euer Leiden tausend Dank,
Dass ihr mein Seelenheil
so wert geacht’t.
Solo (Soprano)
Receba por toda a minha vida
pelos seus sofrimentos mil agradecimentos,
pois pela salvação da minha alma
você tanto se empenhou.
Chor 2
Mein Jesu, gute Nacht!
Coro 2
Meu Jesus, boa noite!

Na despedida do contralto, Buss und Reu (penitência e remorso, lembrando a ária nº6) vem num acorde de 7ª diminuta, e Fall (queda) tem um movimento de queda, descendente. Seu boa noite termina num tom lamentoso, Fá menor, porque lamentosas e expressivas foram suas árias, nºs 6, 30, 39 e 52; apenas a nº 60 caiu fora deste padrão. Na época de Bach, tanto o contralto quanto o soprano eram cantados por crianças, e isso explica porque o compositor reservou as árias introvertidas para o contralto e as mais ingênuas para o soprano (nºs 8, 13 e 49).

O último “boa noite” termina de forma muito misteriosa com uma cadência de engano para o Lá bemol Maior de Nacht (noite): profunda foi esta noite. Porém as cordas se corrigem depois, dirigindo-se para um trágico Dó menor, a tonalidade do coro final da Paixão segundo São Mateus.

Igreja de São Tomás (Thomaskirche) de Leipzig, Alemanha (foto de Dirk Goldhahn)
Igreja de São Tomás (Thomaskirche) de Leipzig, Alemanha, local da estréia da Paixão segundo São Mateus de Bach (foto de Dirk Goldhahn)

Antes de prosseguirmos, vale a pena fazermos uma breve comparação do final desta Paixão com o da outra Paixão de Bach, a Paixão segundo São João BWV.245. Lá, a última ária, nº 35 Zerfliesse, mein Herze, é uma ária triste…

Bach: Paixão segundo São João – 35. Zerfliesse mein Herze (trecho) (Schlick – Herreweghe – Chapelle Royale):

… e o último coro, o nº 39 Ruht wohl, tem uma tristeza mais contida…

Bach: Paixão segundo São João – 39. Ruht wohl ihr heiligen Gebeine (trecho) (Herreweghe – Chapelle Royale):

… concluindo a obra com um coral luterano em tom maior, o nº 40 Ach Herr, lass dein lieb Engelein, triunfante na esperança da ressurreição de Jesus:

Bach: Paixão segundo São João – 40. Ach Herr lass dein lieb Engelein (trecho) (Herreweghe – Chapelle Royale):

Aqui na Paixão segundo São Mateus acontece justamente o contrário: a última ária (nº 65 Mache dich) é uma ária alegre, seguida deste recitativo (nº 67) que retoma o clima de tragédia e vai concluir a Paixão com um intenso lamento (nº 68). O motivo para essa diferença pode estar nas últimas palavras de Jesus: na Paixão segundo São João, ele aceita o sacrifício dizendo “está consumado”, mas na de São Mateus ele sofre rezando “meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”.

68. Chor 1+2: Wir setzen uns mit Tränen nieder

A dualidade entre a felicidade da salvação e a tristeza pela morte de Jesus aparece com toda a força no coro final, o último número da Paixão:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 68. Wir setzen uns mit Tränen nieder (1) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Wir setzen uns mit Tränen nieder
Und rufen dir im Grabe zu:
Ruhe sanfte, sanfte ruh’!
Nós nos sentamos no chão com lágrimas
e chamamos por você diante do seu túmulo:
descanse em paz, em paz descanse!

A estrofe inicial é repetida duas vezes. Da primeira vez, vamos da lamentação em Dó menor para a esperança da ressurreição em Mi bemol Maior, e da segunda vez do Mi bemol Maior retornamos para a tristeza inicial do Dó menor.

O baixo contínuo tem uma linha melódica que lembra o baixo do coro inicial, o nº1, mas com a direção das escalas ao contrário: lá a escala subia, o que poderia ser uma sugestão da subida do calvário, mas aqui a escala desce para nos lembrar do sepultamento. Rufen (chamamos) vem numa nota aguda, chamando de longe, e sanfte ruh’ (em paz descanse) aponta para baixo, sinalizando descanso.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 68. Wir setzen uns mit Tränen nieder (2) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Ruht, ihr ausgesognen Glieder!
Ruhet sanfte, ruhet wohl!
Euer Grab und Leichenstein
Soll dem ängstlichen Gewissen
Ein bequemes Ruhekissen
Und der Seelen Ruhstatt sein.
Höchst vergnügt
Schlummern da die Augen ein.
Descanse, membros esgotados!
Descanse em paz, descanse bem!
Sua sepultura e sua lápide
devem ser para as consciências inquietas
um confortável travesseiro de descanso
e para as almas um lugar de descanso.
Em sublime contentamento
adormecem os olhos ali.
Wir setzen uns mit Tränen nieder
Und rufen dir im Grabe zu:
Ruhe sanfte, sanfte ruh’!
Nós nos sentamos no chão com lágrimas
e chamamos por você diante do seu túmulo:
descanse em paz, em paz descanse!

Na parte central do coro, schlummern (adormecem) desce lentamente para os graves com os olhos pesados de sono, e então repete-se o coro do começo indo novamente de Dó menor para Mi bemol Maior, e de Mi bemol Maior para Dó menor.

No acorde final, há uma apogiatura nas flautas que causa uma dissonância demorada de se resolver. É essa aqui, ó:

Apogiatura final da Paixão segundo São Mateus:

Esse é o símbolo e o resumo de todo o coral: ao mesmo tempo que o poema pede com tristeza para Jesus descansar, a dissonância pede para que o descanso não seja tão completo assim e que Jesus não demore para ressuscitar. O fato do coro terminar com um acorde menor, considerado dissonante na época barroca, só confirma isso: diferente do coro inicial nº 1, aqui nós ainda não chegamos na verdadeira conclusão da história.

Johann Sebastian Bach

Seção Agradecimentos

Não posso finalizar esse gigantesco trabalho sem três agradecimentos bem especiais.

Ao Leonardo, companheiro aqui do blog que me incentivou nessa empreitada e esteve sempre atento na revisão dos textos. Obrigado! E obrigado também pela ajuda na tradução de várias palavras do grego! Por mais que eu não as tenha usado, elas foram de grande valia para a compreensão do tema.

À minha esposa Mariane, que me apoiou em todos esses meses e me ajudou a escolher grande parte das imagens que vocês veem nos textos, incluindo os cliparts das partituras. (Aliás, ela não esquece o dia em que eu cheguei pra ela e disse, “me ajuda a escolher um túmulo?” – risos). Obrigado!

E por fim, nunca me foi tão claro o motivo de Bach finalizar todas as suas partituras com a sigla S.D.G., Soli Deo gloria (“Glórias somente a Deus” em latim) – ou seja, que o crédito por esta obra seja dado não a mim, mas a Deus, que operou através desse seu humilde servo. Parafraseando-o, gostaria de concluir esta análise de maneira similar. Até fiquei tentado em incluir um “B” ali junto com a letra “D”, mas acho que o modesto compositor não iria apreciar a justa homenagem. Portanto:

S.D.G.!

Este post pertence à série “Os segredos da Paixão segundo São Mateus”:
1. Introdução, história da composição e estrutura
2. Jesus em Betânia
3. A Última Ceia
4. No caminho para o Monte das Oliveiras
5. Tentação e Prisão de Jesus
6. Jesus diante de Caifás
7. O destino de Pedro e Judas
8. O julgamento diante de Pilatos
9. A Crucificação
10. Morte e Sepultamento
Tradução da Paixão segundo São Mateus, de Bach

25 Respostas

  1. Adriano
    |

    Parabéns pelo maravilhoso trabalho! Um marco da internet brasileira! \o/

  2. Leonardo T. Oliveira
    |

    Sem palavras pra parabenizar a genialidade e o empenho desse trabalho!

    Além de uma experiência musical reveladora pra QUALQUER pessoa, foi uma leitura muito valiosa do próprio evangelho, sob a luz da música de Bach e das informações do próprio Amancio. E mais do que expor o que se passava nos rudimentos da música, os insights do Amancio para interpretar o sentido das escolhas de Bach também foram brilhantes. Pra mim, pessoalmente, ficou muito mais clara a progressão de tom da obra conforme a crucificação se aproximava na narrativa e se cumpria no final: a obra fica mesmo cada vez mais dramática até repousar em um tom ambíguo, premente da alegria da ressurreição mas comovida pela morte de Jesus. A didática e o despojamento da escrita do Amancio e das imagens também têm que ser reconhecidas, pois facilitaram demais toda a carga de leitura e de aprendizagem depois desses dez posts.

    Parabéns e que ainda sirva pra muitas pessoas de agora em diante!

  3. Heber Fiori
    |

    Trabalho maravilhoso, parabéns pelos artigos.

  4. Jânio Nascimento
    |

    Simplismente parabenizar ao empenho e dedicação do Amancio, por compor de forma tão significativa essa incrível análise, de toda essa obra de Bach. Valorosa experiência. Muito obrigado!

  5. Elisangela Martins
    |

    Faço minhas as palavras de Leonardo.

    Sempre achei as obras de Bach maravilhosas, mas não tinha predileção por nenhuma delas, até esta análise.
    Acompanhar os posts foi um “calvário” delicioso e com certeza inesquecível!
    Obrigada por este maravilhoso trabalho ;D

  6. ENEO JOSÉ LEITE COELHO
    |

    Há alguns anos que revisito a Paixão (junto com a Chacona, o meu “Bach de cabeceira”), no início só a música, e, ultimamente, acompanhando a tradução. Mas faltava alguma coisa … foi quando, na última quarta-feira, em plena Semana Santa, resolvi cavucar no Google e …bingo, encontrei o que procurava … . Foi amor à primeira vista. Devorei os 10 posts em 3 dias! Literalmente perdi o sono. Alguns “segredos” que já conhecia, outros que intuía e muitas novidades surpreendentes. Profundidade e leveza em harmonia. Seriedade e bom humor entrelaçados (cruzamento de vozes?). O contraponto com outras obras de Bach. Os ganchos entre um trecho e outro, e entre os posts. Os clip-arts sobre as partituras. Os pormenores sonoros exemplificados (Ele também está presente nos detalhes). Tudo sensacional!. Parabéns! Pretendo, de agora em diante, acompanhar o blog, que não conhecia.

    Feliz Páscoa!

    ps: não resisto … S. D. (B./A. C.). G. !!!

  7. Tiago Arruda
    |

    Parabéns Amancio, você foi demais.
    Parabéns euterpe, vocês superaram todas as expectativas.
    Essa série é certamente a maior contribuição que vocês já deram. Essa série não vai rapidamente se viralizar pela internet para logo em seguida cair no esquecimento. Os frutos dela vocês vão colher a longo prazo. Providenciem a tradução para o inglês e vocês falarão ao mundo.
    Um grande abraço.

  8. F. S. Monteiro
    |

    Novamente parabéns pelo seu trabalho monumental. O que mais me impressiona quando pesquiso sobre Bach é a sensação de que o trabalho nunca termina, e de que cada coisa descoberta abre a porta para outras várias ainda desconhecidas. Abs.

    “I do not know what I may appear to the world, but to myself I seem to have been only like a boy playing on the sea-shore, and diverting myself in now and then finding a smoother pebble or a prettier shell than ordinary, whilst the great ocean of truth lay all undiscovered before me.” (Isaac Newton)

  9. Amancio Cueto Jr.
    |

    Alô galera, obrigado pelas palavras. Eneo, não exagere (risos).

    F.S., deixa eu te confidenciar uma coisa. Minha sensação é exatamente a sua, mas visto do lado “de dentro” da obra. Eu apanhei só as conchas maiores dessa praia, eu olhei a partitura e só catei o que vi por cima, o que estava mais à mostra. Imagine se eu tivesse mesmo estudado todas as harmonizações de corais, como eu queria ter feito; se eu tivesse caçado todos os cruzamentos de vozes escondidos na partitura; e, principalmente, se eu já tivesse estudado a Paixão segundo São João antes para sentir a evolução na escrita de Bach. Por mais que o meu trabalho tenha toda essa aparência de monumental, continuo pensando que eu só arranhei a obra, e é possível sim ir muito mais fundo. Fico feliz de saber que o próximo Amancio a tomar essa iniciativa não partirá do zero, mas terá algo em que se basear e criticar.

  10. jorge quezada
    |

    Se agradece este tremendo y hermoso trabajo que permite conocer mejor esta extraordinaria obra.
    SDB!

  11. Renato Lima
    |

    Parabéns pelo trabalho maravilhoso, realmente uma obra de arte! Obrigado por disponibilizar esse material sobre o maior gênio da humanidade de todos os tempos e essa obra que é uma das “assinaturas” de Johann Sebastian Bach.

  12. Ticiano Biancolino
    |

    Uma série épica! Ainda não fiz mais do que “dar uma olhada”, mas estou ansioso por aproveitar cada milímetro, desde o início, e me aprofundar nesta obra prima de Bach com tão interessante e notável guia. Parabéns a você pela dedicação nesse tipo de trabalho que faz toda a diferença. E (mais um) parabéns ao Euterpe como um todo. Fantástico!

  13. Jorginho Luduvice
    |

    Perfeito. Sem Palavras

  14. Cleverson
    |

    Terminei; sem comentários no melhor sentido do termo… Apenas reforço a sugestão de providenciar traduções, caso não existam ainda análises similares noutros idiomas (já procurou?)

    P.S.: Haveria alguma obra de Bach para Domingo de Páscoa descrevendo a Ressurreição e que se poderia dizer então que continuou e chegou “na verdadeira conclusão da história”? Seria interessante, até para ver o contraste de atmosferas.

  15. Amancio Cueto Jr.
    |

    Oi Cleverson,

    Sim: em 1725, Bach compôs uma cantata que depois ele expandiria para um oratório, o Oratório da Páscoa BWV.249. Nesta obra há quatro personagens: Pedro, João, Maria Madalena e Maria de Cléofas, e a obra basicamente conta o que aconteceu no domingo de Páscoa, os apóstolos vendo o túmulo vazio, Maria Madalena se perguntando para onde levaram o corpo, etc. A obra até que é interessante, mas na verdade é um “juntão” de obras anteriores (concertos para instrumento, uma cantata profana), então não há todo esse preciosismo que encontramos em profusão na Paixão segundo São Mateus. Ouça aí: https://www.youtube.com/watch?v=tWcpB15Ta2w

    PS.: nunca pesquisei para ver se há análises da Paixão em outros idiomas. Mas, com certeza, um dia irei traduzir a análise para o inglês.

  16. Cleverson
    |

    OK, muito grato !

  17. Koiti Takahashi
    |

    Parabéns pelo excelente post. Quando pequeno, participei diversas vezes da apresentação dessa peça no Memorial da America Latina em São Paulo como membro do Coral Infantil Eco. Sempre achei a obra muito bonita mas nunca tinha parado para estudar e analisar o conteúdo dela. Este post foi muito além do que eu procurava e me despertou mais curiosidade sobre os detalhes “escondidos” nas obras clássicas.

    Obrigado!

  18. Paula Ramos
    |

    Prezado Amancio, que trabalho incrível! É emocionante observar o cuidado de tuas análises, a leitura atenta, minuciosa e visceral do texto e da música. Parabéns!!! E que prazer ao ler teus textos… densos em informações, leves na construção, conduzindo o leitor de maneira inteligente e revelando algo fundamental para quem escreve sobre arte: mais que paixão, amor!

    Muito obrigada por este presente!

  19. John
    |

    Amancio, qual interpretação/gravação da obra você indica?
    Obrigado e parabéns pelo trabalho.

  20. Amancio Cueto Jr.
    |

    Olá John!

    Se você curte a rapaziada das antigas, orquestra grande, som majestoso, eu recomendo o Karl Richter com um time de primeira, que inclui o Peter Schreier como Evangelista e o grande Fischer-Dieskau como baixo. Aquele trecho coral do “Wahrlich, dieser ist Gottes Sohn gewesen” (no meio do recitativo 63) até hoje me leva ãs lágrimas:
    https://youtu.be/Xdl0m1v5el8?t=10373

    Mas se você é adepto das interpretações mais modernas, com instrumentos de época e andamentos mais dançantes, essa gravação que eu usei nos posts é a top suprema! Philippe Herreweghe, Collegium Vocale Gent, com o Ian Bostridge como Evangelista. Os 153 minutos passam voando, sem cansar, e quando termina você ainda quer ouvir tudo de novo.

  21. John
    |

    Show, Amancio, mas onde eu encontro um vídeo com as legendas?
    Eu até tento acompanhar com a sua tradução, mas é meio complicado (confesso). rsrs
    Achei um no YouTube, mas na metade ele dá uma cortada e as legendas se perdem.

    Obrigado!

  22. Amancio Cueto Jr.
    |

    Olá John,

    As pessoas dizem que na internet você encontra de tudo… mas algumas coisas “básicas” ainda parecem faltar. Por exemplo, um vídeo com a Paixão segundo São Mateus legendada: não faço idéia onde você pode encontrar. Quem sabe, depois que eu ganhar na Mega-Sena amanhã, eu possa criar um pra você. :-D

  23. John
    |

    KKKKK, bem que você podia fazer uma maratona e legendar um desses vídeos, hein?
    Seria um benefício para nós =]
    Valeu pela atenção!

  24. Amancio Cueto Jr.
    |

    John, se eu pudesse fazer uma maratona, eu aprontava os três posts que eu tenho quase prontos aqui em rascunho. Tenho um com um vídeo de 2h pronto mas falta o texto; tenho outro com texto pronto mas falta um vídeo de 30 minutos; e tenho outro que falta texto e apenas 5 minutos de um vídeo de 1h. Toda vez que chega sexta feira eu digo pra mim mesmo, “neste final de semana sai um!”… e nada. Pra sair mais um vídeo de 2h30 então, só ganhando na Mega Sena mesmo!
    Obrigado pelo apoio!

  25. flavio j. morsch
    |

    Olá, pessoal. Eu tenho um DVD da DG com Karl Richter, P. Schreier, J. Hamari, H. Donath, W. Berry. …adquirido na Amazon.
    Legendas em alemão, inglês, francês, espanhol e mandarim.

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