Uma nota sobre a história da música de Carpeaux
É inevitável: quem quiser começar a ler sobre a história da música, no Brasil, irá encontrar, em algum momento, o livro de Otto Maria Carpeaux, Uma Nova História da Música, publicado pela primeira vez em 1958. Mais recentemente, a obra foi relançada sob o nada modesto título de O Livro de Ouro da História da Música. De todo modo, o conteúdo é o mesmo.

Otto Maria Carpeaux
Não será possível exagerar a influência desse livro até hoje na formação de muitos músicos e melômanos do país. Dada a raridade por muitos anos de outras publicações do gênero entre nós, Carpeaux foi quem primeiro apresentou um extenso número de informações sobre a história da música, gêneros e composições – da Idade Média até o momento em que o autor escrevia. Isso sem falar nas menções à música brasileira, plenamente inserida no contexto ocidental, que vão do período colonial até Guarnieri. É uma popularidade que, portanto, não surpreende.
Contudo, é igualmente inevitável perceber que o livro divide opiniões intensamente. Já tive oportunidade de conhecer tanto amantes fiéis como detratores ardorosos, esses últimos detendo o mérito das críticas mais precisas. Para eles, a obra é datada e, sendo atualmente fácil encontrar títulos equivalentes muito superiores em informação e detalhes, Uma Nova História da Música pode ir para os sebos e ficar por lá. Se ganha muito mais com a leitura de Roland de Candé ou Palisca e, sobretudo, não se é influenciado por opiniões disparatadas que se apresentam como definitivas – porque se há algo que Carpeaux consegue ter é opinião, por vezes peculiares, sobre absolutamente toda a música composta. Aos seus admiradores resta resignar e admitir que o apreciam pelo mesmo motivo que gostam de uma gravação de alguma obra sem demasiadas considerações – por ter sido a primeira que ouviram.
De fato, as idiossincrasias de Carpeaux são várias. Desconsidera o valor musical de obras e compositores por motivos extra-musicais, evidenciando seu amadorismo. E esse é o maior trunfo das acusações contra o austríaco: ele não é um músico – aliás, é bastante duvidoso que tenha escutado absolutamente tudo o que cita com propriedade. É, certamente, um erudito, conseguindo expor o imenso painel da música ocidental com aparente facilidade; porém, na hora de comentar aspectos individuais de obras específicas pode incomodar profundamente alguns melômanos mais experientes: Vivaldi é “limitado” e Mendelssohn é “acadêmico” – no pior sentido do termo –, logo, superficial. Tchaikovsky também é frívolo, sendo que algumas de suas obras podem mesmo ser prejudiciais à educação do gosto musical – e dizer que o compositor era “sexualmente anormal” não ajuda. Mahler é ambíguo, pois por um lado compôs o ótimo Das Lied von der Erde, mas, por outro, suas sinfonias, “síntese imperfeita entre tradição e modernidade”, são cheias de recursos exagerados e se tornaram completamente obsoletas. Shostakovich e Prokofiev, por sua vez, merecem a crítica de epígonos do romantismo, incapazes de darem um salto maior na composição, independente da censura soviética. Richard Strauss e Puccini? Talentosos, mas, infelizmente, oportunistas. Sibelius? Triste que suas sinfonias dividam os palcos com as de Brahms.

Capa da 6º edição
Então, Carpeaux é mesmo ilegível e irrelevante para conhecer a história da música? Creio que não. Reconheço que sou dos que tem apreço sentimental ao livro, uma vez que foi uma acessível porta de entrada para compreender o contexto de tudo aquilo que eu começava a ouvir, espécie de primeiro amigo num assunto tão absolutamente novo. De fato: não é livro para um estudo mais acadêmico, para músicos ou musicólogos, pelo motivo mais óbvio: Uma Nova História da Música não se pretende ir além do ensaio. Aquele que procure uma obra autenticamente historiográfica sobre a música ocidental terá mais sucesso na leitura de Charles Rosen ou dos Massin. Quando a obra de Carpeaux surgiu ela preencheu um vácuo que demorou a receber companhias por outras obras. Não foi sua intenção ser referência em história da música na educação musical no país. Se ele se tornou isso, deve-se menos a seus propósitos pessoais do que às nossas deficiências editoriais. Deficiências essas, aliás, que persistem até hoje ao não corrigirem erros estranhos de traduções do alemão para o português – sobre isso, vejam-se alguns títulos das cantatas de Bach mencionados. Custa-me crer que os erros são autoria de um austríaco que morava já há vinte anos no Brasil.
Daí que na sua virtude – ser ensaio acessível – reside também aquilo que faz despertar as maiores críticas. Ora, um ensaio de Carpeaux pode ser muitas coisas, mas certamente não é imparcial – no melhor sentido que esse termo possa ter – o bastante ao apresentar sua perspectiva conforme um manual. Veja-se sua preferência nítida pela música alemã, algo inescapável para um homem que nasceu na Viena do começo do século tendo testemunhado a crise que desencadeou nas vanguardas modernas.
Evidentemente, pode-se pensar que ao se conhecer o tema num ensaio tão parcial (ou errado, se preferir), permeado de lugares-comuns, não se irá terminar comprometendo esse mesmo conhecimento para sempre. Aqui, sou otimista o suficiente para crer que isso acontecerá apenas ao jovem melômano que não seguir em frente – e acaso não siga, Carpeaux não merece a culpa. Gosto de pensar no caso do oratório Christus am Ölberge, que para nosso autor era uma das piores partituras de Beethoven o que, porém, não abalou minha vontade de conhecer a obra, absolutamente (“como será um Beethoven ruim?”, eu pensava).
É verdade que já podemos contar com outras publicações mais embasadas, mas a presença de seu livro numa biblioteca não desmerece a ninguém. De fato, sua admirável síntese não escapa às suas circunstâncias em diversos momentos, mas, ainda assim ele disserta sobre o “espírito do tempo” que permeia a história da música como grande conhecedor da tradição ocidental em suas outras manifestações – filosofia, literatura, história, etc. Essa abertura de horizontes não é, e nem poderia ser, enganosa.
Audio clip [Beethoven - Christus Am Olberge Op. 85 - 18. Schlusschor der Engel. Preist ihn (Christoph Spering - Chorus Musicus das Neue Orchester - 1999)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
13 comentários
Hummm, muito bom, vou ler essa matéria hoje, obrigado por compartilhar! Abraço
O que me impressiona mais são os acertos do livro de Carpeaux, compositores e obras que naquela época eram bem desconhecidas do público mundial (brasileiro? Esse nem conta mesmo ). Além disso, quase todos os livros de história da música da época tiveram que ser revistos, o gosto musical e o valor das obras mudam muito de época para época. O mais importante crítico do século XIX foi Eduard Hanslick. Hoje ninguém ler uma linha do que ele escreveu, diferente do nosso Carpeaux.
p.s: Mahler não tinha uma fama muito boa na época.
ótimo post, Randau. Ja não era sem tempo!
Carpeaux tem lá suas idiossincrasias mas tem o mérito de ter iniciaado muito gente, inclusive eu, no mundo da música clássica. Eu o conhecia dos seus ensaios sobre literatura e sua prosa sempre me agradou.
p.s.2: quem não for germanófilo que atire a primeira pedra.
Ótimo texto. Apesar de suas caneladas, Carpeaux nos atrai justamente por sua ergumentação por vezes contundente, como disse o Emerson: a prosa dele é agradavel. Antes de conhecê-lo(com um livro desta mesma edição apresentada) eu havia entrado em contato com o Maravilhas da Musica Universal do David Ewen, no qual o autor parece sugerir que TODAS as músicas do repertório erudito são as mais belas que existem.
Cuidado, Carlos, o Bruno vai te apedrejar.
Carpeaux geralmente está certo, inclusive quando erra — e, reconhecidamente, ele erra muito. Mas com que cultura, com que bom gosto ele erra! Eu queria errar como ele. Eu queria também que seus detratores errassem como ele. Mas é da natureza das coisas que haja muitos críticos de música e poucos Carpeaux.
Deste post e dos comentários acho que algo não deve deixar de ser mencionado, pra não haver o risco de um mal-entendimento: Carpeaux foi um erudito da alta cultura, de formação e nível que nós simplesmente não tínhamos nessa época no Brasil. Então a obra não é de forma alguma um tapa-buracos na musicologia brasileira, é o empreendimento de um homem de cultura superior, que tinha a maturidade de citar uma bibliografia monstruosa assinalando a discussão de cada ideia que propunha. De resto, prevalece o tom ensaístico da obra, daí algumas vezes melômano, mas também interdisciplinar, mas que articula com muita intimidade grandes sínteses e por isso mesmo se torna uma obra de iniciação tão eficiente e uma leitura tão brilhante.
A maior crítica fica mesmo por conta dos erros da obra que, depois de tantas vezes reeditada, simplesmente não foram corrigidos. E também esse deslocamento de gênero: na falta de histórias mais informativas e enciclopédicas de música, ficamos por muitas gerações com esta que é, na verdade, mais ensaística e que perde se julgada sob esse ponto de vista, ao qual, como o post disse, um Palisca ou os Massin servem bem melhor.
Fernando,
Um detalhe importante me chamou atenção no seu post. Você comenta que Carpeaux provavelmente não teria ouvido tudo o que ouviu. Ocorre que o contato do crítico austríaco com a tradição musical se dava sobretudo através da leitura das partituras, e não da audição das peças. Con efeito, Carpeaux preferia a leitura a audição, por considerar a primeira um acesso mais direto ao pensamento do compositor ( e, de fato, a análise de partituras é uma capacidade indispensável para o estudo sério de música).
Olá Ricardo! Talvez nessa sua observação esteja a raiz dos problemas de Carpeaux: a partitura não é o fim mas o meio para o compositor atingir seu objetivo: o som, a matéria sonora. Na literatura musical, há vários exemplos mostrando que o que deve soar NÃO é o que está escrito (o final da Sinfonia Patética de Tchaikovsky é um exemplo clássico disso). Então, ao julgar uma música pela sua escrita, Carpeaux pode entrar facilmente em conflito com aqueles que julgam a música pelos sons.
Duas observações importantes: a leitura de uma partitura demanda mais tempo do que ouví-la, e encontrar algumas partituras é, com frequência, um enorme desafio. Assim, li com certo ceticismo seu comentário sobre Carpeaux. Onde vc conseguiu essa informação?
Amancio,
Acho que o Ricardo se refere ao que o próprio Carpeaux costumava afirmar: que tal ou tal obra era tão sofisticada, sutil e rica em detalhes que talvez fosse melhor apreciá-la pela partitura do que simplesmente ouvi-la (ele falou isso de Webern e não sei se não chegou a falar isso das Variações Goldberg do Bach e das Variações Diabelli do Beethoven). Isso é uma coisa engraçada que ele dizia e a lembrança do Ricardo foi bem pertinente. Mas, sobre justificar com isso essa desconfiança de que a opinião que ele emitia sobre tudo devia ser fruto, muitas vezes, de mera especulação sobre obras que ele não conhecia, eu acho que você tem um ponto importante: partituras também não são fáceis de ser encontradas! E o fato é que, se eu me lembro bem, nessas horas ele comete erros que o entregam: acho que ele fala da ópera “L’Arianna” do Monteverdi, sendo que só o “Lamento” dela sobreviveu ao nosso tempo.
Ricardo,
É basicamente aquilo que Mahler colocou: a partitura contém tudo, menos o essencial. Isso de que você fala me lembrou um trecho do ótimo Listening to Reason, de Michael Steinberg, em que ele faz referência ao Amadeus, de Milos Forman. Há uma famosa cena ali em que Salieri consegue “ouvir” a música de Mozart simplesmente passando as páginas – e para seu horror, já se dá conta da genialidade natural dele. Acontece, diz Steinberg, que essa capacidade se torna duvidosa quando desconsidera o componente contingente da execução musical, que junta a materialidade – desculpe, não encontro palavra melhor – da partitura com a da interpretação de alguém. Um bom exemplo foi quando Brahms, que apreciava ler a partitura de Don Giovanni mais do que ouvi-la, enfim escutou a ópera sob a regência de Mahler (mas isso é um tema para outro post).
Recordo também que Carpeaux menciona várias edições de partituras em seu livro. Imagino que ele estava bem ciente das publicações de seu tempo e lembro especialmente do trecho em que sugere que A Arte da Fuga era música para ser lida. Mas, ainda assim, compartilho do ceticismo de Amâncio e, permita-me dizer, há algo de pedante num amador que prefere ler a partitura sem nem escutar a música – e o livro de Carpeaux pode ter diversos defeitos, mas jamais o de ser pedante.
Há muito o que se falar sobre esse livro de Carpeaux. Pelo menos é isso que penso após ter folheado algumas páginas. Várias de suas opiniões são tão diretas e pontiagudas que chega a assustar. Na página 200 (da edição que eu tenho) ele diz: “Christus am Ölberge, encomendado pelo Príncipe Esterházy, não vale nada”.
Mais assustador ainda é na página seguinte, “É uma pena que obras como o Concerto para Piano Nº1, op.15 (1798) e Nº2, op.19 (1798) continuem no repertório e fiquem gravados em discos, só porque são de Beethoven”. Pena uma ova, porque o Concerto Nº 2 é simplesmente o Concerto para Piano que eu mais escuto, o mais simples e o mais perfeito de todos, posso ouvi-lo dez vezes seguidas sem parar porque Pollini e Jochum arrebentam.
Mas não pensem que ele detestava Beethoven. Pelo contrário, foi provavelmente o seu preferido. Aponta as Variações Diabelli como superior às Variações Goldberg.
Mas não vi nada mais curioso do que seu comentário sobre Die Ehre Gottes, uma das Seis Canções Sacras op.48: “é uma das obras mais divulgadas de Beethoven, cantada por coro de amadores do mundo inteiro em todas as ocasiões possíveis e impossíveis”. Depois que li isso joguei tudo pro alto e fui correndo achar meu CD. Cheguei à conclusão que eu sou um completo ignorante de música, porque eu nunca tinha ouvido essa peça antes.
Pra finalizar, uma afirmação muito interessante, digna para comentarmos bastante. É bem verdade que ele não foi o único a dizer isso, há vários que compartilham dessa opinião, mas que não deixa de ser ousado e surpreendente: ele considera a Sinfonia Nº1 de Brahms “talvez a maior sinfonia do século”. Valeu, gente!
Carpeaux mostra que adorava Brahms mesmo. E esse comentário sobre o oratório do Beethoven chega a ser revoltante. Faz muito tempo que penso em um critério pra escrever um post sobre essa obra (e até já tenho um em mente), que tem problemas estilísticos: é claramente inspirada em um formato dramático e operístico, relegando alguns elementos caros ao gênero do oratório, como o contraponto, o que lhe confere certa inadequação por isso, mas que é uma obra lindíssima, uma das descobertas musicais mais empolgantes que eu já tive na vida.
Sobre as Seis Canções “Gellert” Op. 48 (que é o nome do poeta do libretto e que também dá título ao ciclo), acho que a quarta ou quinta tem mesmo o formato de um hino e já foi adaptada pra vários idiomas.