Beethoven surdo no concerto da Nona Sinfonia (1879), desenho de Karl Offterdinger (1829-1889)

Como post de estréia do blog, resolvi ressuscitar algumas análises minhas de bons tempos atrás. Esta aqui, sobre a Nona Sinfonia de Beethoven, dizem que virou “hit” no orkut depois que o Leonardo a publicou numa comunidade sobre Beethoven. Eu sei lá, hoje eu a releio e acho tão mané… Acho que, se eu a escrevesse hoje, eu a faria de maneira mais técnica, mais completa, mais objetiva… e talvez mais chata para os não-iniciados. Se um dia eu reescrever esta análise, publico aqui o link para o post! O que vocês acham? Aguardo comentários.

PS.: Fiz algumas pequenas alterações no texto, só pra mantê-lo atualizado, e adicionei uns trechos musicais para maior claridade.

1. Mov – Allegro ma non troppo, un poco maestoso

O primeiro movimento inicia com um pedal lá-mi, ou seja, não estabelece de onde veio nem pra onde vai, terra de ninguém (a audiência se pergunta, que raios é a tonalidade dessa sinfonia?).

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 1 intro]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

E o primeiro clímax expõe dramaticamente o primeiro tema da forma-sonata, estabelecendo finalmente Ré menor como base.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 1 tema 1]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Aliás, da introdução até aqui já notamos de cara a palavra-chave para este movimento: o DRAMA! A tempestade passa um pouco e, caminhando para Si bemol Maior, as madeiras apresentam o segundo tema.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 1 tema 2]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Vem mais um clímax e somos apresentados ao terceiro tema, bem marcial.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 1 tema 3]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Na coda acontece uma boa mistureba de fragmentos dos três temas, até que ouvimos novamente o pedal lá-mi do início. Estamos no desenvolvimento. Ao contrário das outras sinfonias de Beethoven, aqui não há repetição da exposição.

O desenvolvimento é construído nos três temas já apresentados, usando a técnica já velha conhecida de Beethoven: fragmentar, fragmentar e fragmentar. O desenvolvimento beethoviniano é uma imensa colcha de retalhos. O clímax mais poderoso anuncia o pedal la-mi da introdução e chegamos à reexposição. Aqui tudo acontece dentro do previsto, ou seja, uma “cópia” da exposição.

Na extensa coda, que começa com o primeiro tema modificado (era pra ser o pedal lá-mi), novamente temos uma sucessão e mistureba de fragmentos dos três temas, até chegar nos instantes finais do primeiro movimento. Um final extremamente DRAMÁTICO, reforçando a palavra-chave aqui!

2. Mov – Scherzo

O Scherzo da sinfonia começa já mostrando a célula rítmica do movimento. O tema (intervalos de oitava em quartas e quintas descendente) é baseado no mesmo tema que abriu a sinfonia, o primeiro movimento. E uma novidade: o tímpano atuando como solista!

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 2 A].

Na parte A, com ritmo ternário, o tema inicialmente é tratado de maneira fugada. Ao chegar o clímax (e depois dele), Beethoven usa e abusa da célula rítmica, com o tema JOCOSO (ó a palavra-chave aqui) passando das cordas para as madeiras, indo e vindo. Até que, numa virada espetacular, a música muda de ritmo, de ternário para binário, e de tonalidade: Ré menor para Maior. Este é o Trio, a parte B, uma versão simplificada do tema da Alegria do quarto movimento.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 2 B].

Não tarda muito para ouvirmos novamente o ataque inicial do movimento, em ritmo ternário, e recomeça a parte A igual como antes. Lá no final, antes da coda, Beethoven traz mais uma de suas surpresas humorísticas e engana a todos reiniciando o Trio, mas apenas para botar o ponto final no movimento.

3. Mov – Adagio molto e cantabile

O coração da sinfonia abriga um terno Adagio em Si bemol Maior, um tema com variações (a palavra-chave: TERNURA). As duas primeiras notas do tema (ré-lá) trazem o mesmo intervalo que ouvimos no começo dos outros dois movimentos, uma quarta justa.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 3 A].

O tema em si é exposto pelas cordas, como um coral, com as últimas notas de cada frase sempre ecoadas pelas madeiras (é lindo de cortar os pulsos!).

Beethoven aqui também faz uma das suas, misturando tema com variações e ABA. Depois do tema exposto, modulamos para Ré Maior e somos apresentados a um novo tema, o tema B (cujas primeiras notas e os comentários das madeiras lembram a própria introdução do movimento).

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 3 B].

E calmamente voltamos para Si bemol Maior, os violinos entoam a primeira variação do tema A, com o mesmo eco nas madeiras. Aí deslizamos para Sol Maior e ouvimos novamente o tema B. (a audiência se pergunta: “Pô, tio Ludwig, afinal isto é um ABA ou um tema com variações?”). Mas é a última vez que ouvimos o tema B. Temos uma transição em Mi bemol, com pizzicatos nas cordas (seria esta uma “segunda” variação?), e a segunda (ou terceira?) variação em Si Bemol.

A segunda variação não consegue chegar ao fim, pois ela é interrompiada por um toque militar (toque de recolher?). A orquestra tenta levar em frente uma terceira variação, porém o toque militar novamente a interrompe. Vem enfim a última variação, também interrompida antes de sua conclusão, e por fim a coda.

4. Mov – Presto

O quarto movimento abre com uma das maiores dissonâncias escritas até então.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 intro].

É como se fosse uma descrição do apocalipse! Isso deve ter assustado muito as primeiras audições, pois causa impacto e não era muito comum; o povo esperava rondós leves, tipo, o principal da sinfonia (que era sempre o primeiro movimento) já foi! Mas… após a dissonância inicial vem.. um recitativo!!

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 recit].

Meu Deus, o que é isso? Recitativos são músicas introdutórias, aparecem nas óperas para anteceder uma ária por exemplo. Então, se isto é um recitativo, um imenso de um recitativo, daqui a pouco ouviremos nada mais nada menos do que a música das músicas!

O recitativo, entoado pelos cellos e contrabaixos, assume inicialmente um ar extremamente sério e inquisidor, até que ouvimos… o primeiro movimento? Sim, é aquela introdução DRAMÁTICA! Aqui não é lugar para alegrias: os cellos rapidamente cortam e tentam mostrar um tema, mais ou menos assim… Vem as madeiras, saltitantes, tocando o JOCOSO segundo movimento. Não! Não é assim, isso é muito sarcástico, o tema tinha de ser mais romântico, assim como… Lá vem as madeiras novamente, tocam o Adagio… e os cellos fazem aquele discurso, põem um ponto final na discussão e mostram o tema dos temas, o tema da ALEGRIA.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 tema].

O tema vai subindo, primeiro pras violas, depois para os violinos e enfim toma conta da orquestra inteira.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 alegria].

No meio de tanto júbilo, somos interrompidos em nossos sonhos pela dissonância do começo.

E uma voz diz, em PALAVRAS completamente compreensíveis (afinal, apesar de ser alemão, era um alemão falando para alemães):

- Ó amigos, não esses sons! [referindo-se obviamente à dissonância]
- Cantemos, antes, algo mais agradável e alegre!

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 o freunde].

E o amigo entoa o tema da alegria, cantando os versos de um poema de Schiller chamado “Ode à Alegria”. E, tal como foi mostrado na orquestra, a canção vai tomando conta do coro e dos outros solistas. Os interessados na letra e na tradução podem encontrá-la na Wikipedia.

Depois de uma falsa coda (que engana muita gente, pensando que a música acabou), começam as variações. A primeira variação é meio marcial (“alla turca“), com participação do tenor e coro masculino. A segunda variação é em estilo fugado, a orquestra inteira trabalha o tema levando-o para caminhos meio opressivos e tortuosos. E quando você pensa que todos os seus sonhos ruíram… o coro se levanta e entoa o tema na sua forma original, é a terceira variação. É de passar mal de tão lindo, faz arrepiar pêlo em ovo, ressuscitar mortos e coisas semelhantes.

Os trombones dão uma nota (tecnicamente, é para o coro afinar) e um novo tema é apresentado pelo coro. Dêem o nome que quiserem, eu chamo o tema do Criador:

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 seid umschlungen].

- Irmãos! Acima (olha o tema apontando pra cima) das estrelas do céu um Pai bondoso tem sua morada!

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 bruder].

(O tema fica triste)
- Não sentes seu Criador, Mundo??
- Procura-o acima das estrelas do céu. (ó o tema apontando pra cima) Acima delas Ele há de estar!

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 such ihn uberm].

Na quarta variação acontece o processo de fusão dos dois temas, o tema da Alegria com o tema do Criador, como se as duas coisas estivessem [e pra mim estão] intimamente relacionadas.

Audio clip [Beethoven Sinfonia 9 mov 4 fusao].

A quinta variação é o produto resultante da fusão dos dois temas (“todos os homens se tornarão irmãos”), e chegamos enfim à esfuziante coda.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...