Vivaldi x MozartEnquanto juntava material para o meu próximo post, o blog recebeu uma mensagem de uma leitora em apuros com uma dúvida muito comum: quais as diferenças, na prática, entre o estilo Barroco e o estilo Clássico? Por que a Primavera de Vivaldi é considerada barroca e a Sinfonia 25 de Mozart, clássica?  Foi aí que separei uns 40 minutos do meu tempo e montei rapidamente a resposta abaixo. Porém minha supresa depois foi grande, quando recebi vários elogios e agradecimentos não só da leitora mas também dos colegas de blog. Então, enquanto meu próximo post não fica pronto, resolvi compartilhar com vocês o texto tão elogiado.

Mas vou logo avisando: este post está dedicado aos ouvintes que TEM esta dúvida, e por isso ele está cheio de dicotomias e generalizações para que os ouvintes COMECEM a enxergar as diferenças. Tenho certeza que para cada exemplo que eu der, aparecerá alguém oferecendo um contraexemplo: mas a obra X é barroca e não tem essa característica. Sim, é claro, mas para justificar isso entraríamos em uma seara especializada que o ouvinte iniciante ainda não está preparado para enfrentar. Para estes ouvintes mais dedicados, peço um pouco mais de paciência pois ainda iremos dedicar posts e mais posts sobre o assunto. Aguardem!

As definições e teorias são fáceis de entender; quem quiser saber mais, leia aqui sobre o estilo barroco, e aqui sobre o neoclassicismo (que na música é chamado apenas de classicismo). Mas, e quando colocamos o CD para tocar, o que devemos observar para identificar os estilos?

O Barroco é detalhista…

Em resumo, o Barroco é aquela arte cheia de detalhes, cores fortes, uma enorme religiosidade e um grande contraste entre o sagrado e o profano. Então repare a quantidade de detalhes nessa estátua da Alemanha…

Markgrafenbrunnen Bayreuth

Elias Räntz: Markgrafenbrunnen (ou “Fonte do Marquês”) em Bayreuth, Alemanha

… e depois ouça o início do Concerto de Brandeburgo n.2 em Fá Maior de Bach:

Repare a quantidade de informações presentes na música: é muita gente tocando coisas diferentes (e interessantes!) ao mesmo tempo. Até mesmo quando o violino toca sozinho, tem um baixo comentando algo diferente no fundo. Aliás a melodia que o baixo toca é apaixonante e nada monótona, com muitos saltos e frases rápidas cheias de notas diferentes. Veja como a música está sempre trocando de instrumentos, e a mesma melodia passa de um instrumento para outro com muita facilidade.

… e o Clássico é racional

Vamos para o Clássico então. Aqui surge a influência do Iluminismo, aquela corrente de pensamento mais racional e matemática e menos religiosa. Há uma forte sensação de ordem em tudo, todas as coisas precisam estar nos seus devidos lugares. Isto se reflete nas artes plásticas por uma procura pelo geometrismo e pela simetria, como nesta pintura do Goya:

Goya-Sonnenschirm

Francisco de Goya y Lucientes: O Guarda-sol

Tem uma folha no chão; se ela fosse barroca, ela estaria cheia de curvas, rebarbas e detalhes. Olhe o bosque no fundo, todo borrado: onde estão as folhas das árvores? Mas o que é mais importante no quadro está em grande destaque, é a senhorita à frente, seu sorriso e seu cachorro; o restante não tem tanta importância. E a sombrinha verde está na mesma direção do muro, compondo uma simetria com a árvore vergada pelo vento. Agora ouça o início do Divertimento K.136 de Mozart:

Mozart: Divertimento em Ré Maior K.136 – 1. Allegro (Kurpfälzisches Kammerorchester Mannheim – Florian Heyerick):

A melodia tem todo o destaque, o resto não tem importância alguma. Tente cantar junto a linha dos baixos, e você irá notar que ela tem uma nota só, a mesma nota repetida muitas vezes e só de quando em quando muda. Quando aparece uma viola para cantar algo diferente, que nada, ela também fica repetindo sempre a mesma nota. O classicismo passa essa impressão de “simplicidade”, o que não significa que ele seja mais simples que o barroco. Sua complexidade reside na estrutura da obra, a forma que dá ordem à música e põe as melodias nos seus devidos lugares. Quem quiser mais informações pode consultar nosso post sobre forma-sonata (que é a forma do divertimento logo acima) e o tema com variações.

O Barroco é cheio de ornamentos…

Porta do palácio de Peterhof (Foto de Korzun Andrey)

Porta do palácio de Peterhof (Foto de Korzun Andrey)

A foto ao lado é de uma porta no palácio de Peterhof, em São Petersburgo, Rússia, ricamente adornada em estilo barroco. Parecem folhas de um jardim, não? E quanto mais se chega perto, mais detalhes saltam aos olhos: além de folhas nós vemos  pássaros, conchas e um busto lá em cima. Agora ouça a Ária que abre as Variações Goldberg de Bach:

Bach: Aria das Variações Goldberg BWV.988 (Murray Perahia):

É uma música lenta, mas repare como tanto a melodia quanto o baixo são cheios de ornamentos – e por ornamentos entenda, são aquelas notinhas “extras” de enfeite, um trinado aqui (laiaiaiaiai), um mordente acolá (pariram, tirarim), algumas apogiaturas (piram, tarim), etc. A melodia nunca é “lisa”; se pudéssemos desenhá-la, ela teria tantas curvas quanto a porta da foto ao lado.

… e o Clássico é enxuto

Contrastando com o barroco, no clássico encontramos apenas o “essencial”, simples e direto, sem tantos fru-frus. Por exemplo, ouça esse Concerto para Piano de Mozart (um trecho do famoso Concerto n.21 K.467 em Dó Maior):

Mozart: Concerto para Piano e Orquestra n.21 K.467 – 2. Andante (Maria Joao Pires – Claudio Abbado):

E repare como as melodias são lisas e sem rebuscamento, e o acompanhamento sempre muito simples: um-pa-pa-pa-pa-pa um-pa-pa-pa-pa-pa

O Barroco é contrastante…

A arte barroca também é uma arte de contrastes binários: o escuro e o claro, Deus e o homem, o sacro e o profano. O que você vê nessa pintura de Vermeer?

Johannes Vermeer: O soldado e a garota sorrindo

Johannes Vermeer: O soldado e a garota sorrindo

Eu vejo sombras e luz; uma mulher e um homem; alguém de frente e outro de costas; uma janela e um mapa (duas visões do mundo). Agora ouça o terceiro movimento do concerto O Outono de Vivaldi:

Vivaldi: Concerto para violino, cordas e continuo “O Outono” – 3. Allegro (Lorin Maazel):

Você ouve: forte e fraco (não tem meio termo); ou toda a orquestra ou só o violino solo (não tem meio termo); ou lento ou rápido. Não tem trechos com o ritmo acelerando ou volume crescendo – ou pelo menos, não há nada escrito sobre isso na partitura. Se você ouvir qualquer gravação barroca com crescendos e acelerandos, saiba que isto é uma liberdade do músico executante (liberdade esta bem aceita hoje em dia).

Belvedere, em Charlottenburg (foto de Marcus Horn)

Belvedere, em Charlottenburg (foto de Marcus Horn)

…e o Clássico é simétrico

A foto ao lado é da fachada da casa de chá (Belvedere significa mirante) do jardim do palácio de Charlottenburg, em Berlim, Alemanha. Observe que um lado é exatamente igual ao outro; é quase tudo muito reto, sem todas aquelas folhas e contornos complexos do barroco. Em cada andar há exatamente duas janelas de um lado, duas janelas do outro. No centro, primeiro andar, há duas colunas de um lado, duas do outro. Lá em cima, um triângulo marcando o centro. A entrada é simples e funcional.

Vamos dar uma olhada no início da Sonata para Violoncelo e Piano n.3  em Lá Maior de Beethoven:

Beethoven: Sonata para Violoncelo e Piano n.3 em La Maior – 1. tema 1 (Du Pre – Kovacevich):

Como num jogral, o violoncelo começa o primeiro tema, e o piano termina.

Beethoven: Sonata para Violoncelo e Piano n.3 em La Maior – 2. repete tema 1 (Du Pre – Kovacevich):

Então piano toca o que o violoncelo tocou antes, e violoncelo responde o que o piano respondeu antes  (só trocaram os papéis, seguindo uma simetria).

Beethoven: Sonata para Violoncelo e Piano n.3 em La Maior – 3. transição (Du Pre – Kovacevich):

Em seguida ouvimos uma transição, e repare que quase sempre os trechos se repetem, como se viessem em pares. A transição leva ao segundo tema:

Beethoven: Sonata para Violoncelo e Piano n.3 em La Maior – 4. tema 2 (Du Pre – Kovacevich):

Tal como se estivéssemos do outro lado do espelho, agora é o piano quem começa o tema, e o violoncelo quem o termina (exatamente o contrário do primeiro tema).

Beethoven: Sonata para Violoncelo e Piano n.3 em La Maior – 5. repete tema 2 (Du Pre – Kovacevich):

E na repetição do segundo tema, o violoncelo toca o que o piano tocou antes, e o piano conclui o que o violoncelo concluiu antes. A sonata continua ainda com páginas e páginas desse revezamento.

Vamos praticar?

Comecei o texto perguntando: por que a Primavera de Vivaldi é barroca e a Sinfonia 25 de Mozart é clássica. Vamos aplicar os conhecimentos primeiro em Vivaldi:

Vivaldi: Concerto A Primavera – 1. Allegro (Lorin Maazel – Solistas da Orq. Nacional da França):

Tente reparar em tudo o que eu falei anteriormente. A quantidade em excesso de informações, onde cada instrumento toca algo diferente e interessante, porém com uma observação importante: Vivaldi aqui queria passar a impressão da simplicidade da vida no campo, então talvez esse quesito “excesso de informações” fique um tanto mascarado. Porém as outras caracteristicas estão presentes: a alternância de contrastes entre fraco e forte, entre toda a orquestra e apenas os solistas. Note também a riqueza de ornamentos, os trinados, as melodias que não são lisas. Aos mais interessados, recomendo a análise que escrevi aqui em Euterpe de todas as Quatro Estações.

E agora o Mozart:

Mozart: Sinfonia n.25 em Sol menor K.183 – 1. Allegro con brio (Jaap ter Linden):

Só há uma melodia tocando por vez, não temos vários instrumentos se atropelando e tocando coisas diferentes ao mesmo tempo. Quando tem, é só um acompanhamento: ou os sopros tocam notas longas (a mesma nota, bem longa), ou são notas repetidas (a mesma nota, repetida). Tente achar a passagem mais complicada, e ainda assim ela será mais simples e clara do que em uma obra barroca.

A habilidade de diferenciar o clássico do barroco vem, principalmente, da prática. E “prática” aqui, estamos falando em… ouvir! Quanto mais você ouve um estilo de música, mais fácil será para identificá-lo depois. Assim eu não poderia finalizar este texto sem deixar esta recomendação: ouçam bastante música!