Em 20 de junho de 2012, por Greg Sandow

(Escrevendo na terça à noite.)

Como amanhã eu tenho a primeira sessão da minha próxima oficina de branding, não vou ter tempo para escrever a sequência dos meus posts sobre como formar um público jovem. O que seria – e será – sobre como o repertório que nós tocamos deve mudar.

Mas eis aqui um acréscimo ao post de ontem sobre fazer com que as pessoas se sintam entusiasmadas e envolvidas. É um e-mail que eu e muitos outros receberam de Anastasia Tsioulcas, sobre o projeto do qual ela faz parte na NPR, onde ela trabalha. Ele fala por si mesmo, então vou apenas reproduzi-lo aqui:

Feliz (quase) verão a todos!

Você já sonhou em participar de uma première mundial de um dos compositores mais amados e amplamente celebrados do mundo? Aqui está a sua grande chance: sim, você, seus amados amigos & colegas. (E se você não quiser cantar, apenas venha assistir.)

Para comemorar o 75º aniversário de Philip Glass este ano – talvez o compositor contemporâneo mais famoso do mundo – a NPR Music encomendou a Glass a criação de uma curta obra coral que fosse divertida tanto para cantores amadores como profissionais. A curta peça de Glass se chama The New Rule [A Nova Regra] e emprega texto do poeta medieval sufi Rumi, traduzido por Coleman Barks. Somos privilegiados por ter um dos principais regentes corais da América, Kent Tritle, disponível para reger. Nos unimos aos nossos amigos na WQXR e WNYC, juntamente ao festival Make Music New York e a Times Square Alliance, para que isso aconteça.

Estamos convidando o público a tomar parte nesse evento em 21 de junho, que terá lugar em um dos locais mais icônicos do mundo: a Times Square. (Estaremos na Duffy Square, que fica um pouco ao norte da Times Square perto do stand da TKTS.) Estaremos filmando e gravando a apresentação para uma NPR Music Field Recording [Gravação de Campo da NPR Music].

Então: Times Square, mais ou menos quando você estiver deixando o trabalho. E se você quiser cantar, aqui está o link para a partitura: http://www.npr.org/blogs/deceptivecadence/2012/05/11/152517919/come-sing-in-a-philip-glass-world-premiere-in-times-square

Você vai, certo? E divulgue para os amigos: quanto mais, melhor. RSVPs (via o link acima) serão muito apreciados.

Toda instituição de música clássica (e talvez mesmo solistas e conjuntos) deveriam estar fazendo coisas como essa. Entendendo, é claro, que “coisas como essa” cobrem um amplo terreno, e que não há razão para imitar o que a NPR fez. Encontre a sua própria maneira de fazer com que a sua comunidade se junte a você para fazer música.

Uma reflexão. A maravilhosa ópera Noye’s Fludde [O Dilúvio de Noé] de Benjamin Britten, que conta a estória de Noé e a arca, foi escrita para a cidade inteira apresentar. Ou, de todo modo, um grande número de pessoas musicais em uma cidade. Garotas adolescentes fazem as amigas da Sra. Noé (suas “comadres”), dezenas de crianças podem ser os animais, com os mais novos fazendo os menores (gritando “Kyrie eleison” à medida que marcham desordenadamente para a arca).

A orquestra inclui um coro de sinos, que cidades britânicas teriam tido em 1957, quando a ópera foi escrita. Há partes para instrumentistas de cordas iniciantes, violinistas que tocam apenas cordas soltas. Há partes para flautas doces, que muitas crianças na época aprendiam a tocar. Você precisa de um casal de cantores adultos, barítono e mezzo, para ser Noé e a Sra. Noé, e alguém com uma boa voz para falar e um senso rítmico decente para ser a Voz de Deus. Mas fora isso, é uma peça com partes para qualquer um, incluindo o público, que se junta para cantar hinos.

(O texto, por sinal, é uma peça medieval de mistério, daí “fludde” para “flood” [“dilúvio”]. Modernizei os nomes para simplificar.)

É uma peça realmente maravilhosa. Eu fiz a Voz de Deus em uma produção em Boston nos anos 60. (E não, isso não me subiu à cabeça; eu era então um cantor, e queria ter sido escolhido para ser Noé. Espero que minha voz tenha sido boa o bastante para o papel que fiz!) E amei cada minuto dos ensaios e das apresentações. Na década passada, ao reencontrar a peça na gravação do próprio Britten, eu a amei tanto quanto antes.

Então há algo que uma companhia orquestral ou de ópera poderia fazer (se elas podem encontrar um coro de sinos), para envolver a comunidade.

Ou por que não encomendar de um compositor uma nova peça que funcione do mesmo jeito? Com, talvez, algumas das bandas de rock locais, ao invés de um coro de sinos. Ou da maneira como o compositor quiser fazer. As possibilidades são verdadeiramente infinitas, e fico surpreso que – na esteira de Britten – peças como Noye’s Fludde não tenham sido difundidas.

“Doing it”, por Greg Sandow, traduzido por Leonardo T. Oliveira.

Este post pertence à série A crise da música clássica, por Greg Sandow:
1. Um tempo selvagem, em 12 de junho de 2012
2. A grande mudança, em 14 de junho de 2012
3. Por que o público vence a apologia, sempre, em 15 de junho de 2012
4. Construindo um público jovem (primeiro post), em 19 de junho de 2012
5. Colocando isso em prática, em 20 de junho de 2012
6. Construindo um público jovem (segunda parte), em 24 de junho de 2012
7. Construindo um público jovem (mais sobre música nova), em 27 de junho de 2012
8. Construindo um público jovem (mais sobre a mudança da cultura), em 28 de junho de 2012
9. Construindo um público jovem (prova da mudança da cultura), em 2 de julho de 2012
10. Programando a música clássica para a nova cultura (primeiro post), em 8 de julho de 2012
11. Boulez e Godard, em 11 de julho de 2012
12. Programando para um novo público: um exemplo, em 13 de julho de 2012
13. Programando para um novo público — Shuffle.Play.Listen, em 17 de julho de 2012
14. Programando para um novo público — mais exemplos, em 20 de julho de 2012
15. Programando para um novo público — coisas que funcionaram, em 24 de julho de 2012
16. Nova programação — expandindo a caixa, em 25 de julho de 2012
17. Repertório — post final, 31 de julho de 2012
18. Tocando mais vividamente, para o novo público, em 2 de agosto de 2012
19. Tocando mais vividamente — segundo post, em 6 de agosto de 2012
20. O que temos que fazer, em 11 de setembro de 2012
21. Quatro pontos para o futuro, em 13 de setembro de 2012
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